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Muitos conhecem este episódio do Evangelho, onde um paralítico deitado numa maca, carregado por quatro homens, é descido através do telhado diante de Jesus. No Evangelho de Marcos, estamos apenas no capítulo dois. Em poucos dias, Jesus já tem ensinado nas sinagogas. Ele fez várias curas e expulsou demônios. Hoje, ele está novamente em Cafarnaum na casa e as pessoas se empurram, porque, dizem, ele proclama a Palavra. Há tantas pessoas que, obviamente, não pode acontecer outra coisa….

E, porém, as pessoas chegam e a maca onde o paralítico está deitado, desceu diante de Jesus. Nenhum pedido explícito é dirigido a Jesus. É Ele mesmo que fala.  Palavra estranha no contexto: “Vendo sua fé, Jesus disse ao paralítico: ‘Filho, os teus pecados estão perdoados'”.

Esta súbita irrupção na casa interrompe Jesus em seu ensino. Aprendemos pelo menos três coisas:

  • Jesus ousa dizer “os teus pecados estão perdoados“(é a primeira vez)
  • Este perdão está ligado à fé e mesmo à fé dos quatro companheiros. O Evangelho não diz nada a respeito da fé do paralítico.
  • É um paralítico que está diante de Jesus e é a fé que Jesus vê, estranho paradoxo!Podemos até acrescentar que esta fé “vista” por Jesus engendra este paralítico anônimo: “meu filho“.

Os escribas, sentados lá, não deixam de fazer a boa pergunta:”Quem pode perdoar pecados senão só Deus? ” É pena que eles tenham dado previamente a resposta:”só Deus”. A conclusão então se impõe: este homem blasfema.

O acontecimento era difícil de ser decifrado. Até então, o perdão dos pecados é dado, como em qualquer religião, num contexto sagrado: um lugar determinado, o santo dos santos dentro do templo; um dia determinado, a festa do perdão; intermediários qualificados entre Deus e os homens, sacerdotes e sacrifícios prescritos para obter o perdão. Nada disso aqui. Um telhado como cortina do santo dos santos; qualquer dia no lugar de Yom Kippur; nenhum sacrifício oferecido por sacerdotes, mas a fé vista por um homem cuja identidade não é conhecida. Tem de que se surpreender, até mesmo condenar.

Jesus compreende imediatamente o que está acontecendo no coração dos escribas. Ele abre então um novo espaço de compreensão: ” Para que saibais que o Filho do Homem tem autoridade para perdoar pecados na terra, digo-te, levanta-te, toma a tua maca e vai para casa. 

fotoCertamente precisará ainda muitos encontros inesperados, para compreender a identidade do Deus que pensamos conhecer bem como a identidade deste filho do homem que faz coisas chocantes. No entanto, naquele dia, uma dupla realidade dá-se a entender: primeiro, fé e reconciliação agora estão intimamente ligadas; em segundo lugar, o filho do homem tem autoridade para perdoar pecados, e esse dia, um homem, então está sendo re-colocado de pé.

 

Quem é este homem?

Este relato inicial em Marcos levanta pelo menos duas questões:

  • Qual é esta reconciliação e o que a torna possível?
  • Quem é este homem que reconcilia?

O texto do paralítico nos revela a faceta individual da reconciliação: uma coisa de homem para homem e de alguns companheiros que possibilitam o encontro. Outras dimensões do pecado atormentam nossas existências e perpassam o evangelho:

  • pecado mais coletivo dos convidados de Levi reconciliados pela refeição compartilhada com Jesus,
  • A reconciliação do homem com a Lei, citada numa frase: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado
  • ´Também, é a travessia do lago que é uma oportunidade para recolocar ordem entre o homem e a natureza: “Jesus repreendeu o vento e disse ao mar: Silêncio! Cale-se! E … o vento parou e tudo ficou calmo
  • E a curta visita num país pagão, onde o homem possuído se encontra, pelo poder de Jesus em seu bom sentido, reconciliado com sua humanidade.

No resto do relato do ministério de Jesus, uma cena é muito especial: a multiplicação dos pães. Uma multidão chega de todos os lugares e em todas as direções.  Até mesmo ela preceda Jesus e seus discípulos. Tomado de compaixão, Jesus vê a multidão como ovelhas sem pastor. Imediatamente, Ele compreende, Ele os ensina. Esta multidão lhe revela sua identidade: ele é imediatamente, o seu pastor. Ele dá a palavra e alguns instantes depois Ele dará o pão. Entre os dois, essa multidão de pessoas torna-se um povo: todo mundo está instalado em grupos, grupos de cem e de cinqüenta.

Jesus humaniza, Ele ensina, Ele organiza, alimenta. É verdadeiramente pastor. Ele reconcilia a multidão com ela – mesma. Jesus já tinha almoçado com alguns pecadores. Aqui o acontecimento tem uma outra dimensão: É Jesus mesmo que, com os seus discípulos, alimenta todos os homens presentes.

Dar a sua vida …

Nesta fase, temos provas suficientes da identidade dAquele que reconcilia para compreender como tudo toma forma no momento final de sua existência em que nada de novo acontece, mas onde a palavra dita dá sentido e coerência. Última refeição: alguns companheiros, pão e vinho, uma bênção. E aqui vem uma incrível palavra: ” Tomai, este é o meu corpo. Tomai, este é o meu sangue. O sangue da aliança derramado por muitos.

Esta reconciliação que Jesus, como vimos, continua a viver em todos os níveis da existência, essa aliança sempre renovada com todos, aqui revela o segredo do que a torna possível. Qual é? Aquele que reconcilia de tal maneira se envolve com todo o seu ser e com toda a sua existência, até tomar sobre si a violência das não-reconciliações e a violência das rupturas.

A Ceia traz isso na forma mais marcante possível. No momento da última passagem, qual maior liberdade para um homem do que unir toda a sua existência, a ponto de dispor dela no dom de si para a reconciliação? Ser homem de reconciliação, suscitar a aliança é identicamente dar a sua vida. Ser este homem que faz isso, é ser longamente moldado pela multiplicidade dos encontros, é ser uma presença plena ao que acontece como uma surpresa. É ser plenamente si  mesmo ao ponto  que esta reconciliação se torna contagiosa .

Para muitos ….

É aqui que as nossas duas perguntas encontram respostas. Entendemos o que a reconciliação significava e temos razão em dizer que é Jesus Sacerdote que reconcilia.

Se sacerdote significa intermediário qualificado, separado, espaço sagrado, dom de orações e ações oferecidos para atrair a misericórdia de Deus, estamos no cerne do confronto que levou Jesus para ser crucificado pela casta sacerdotal do templo, que se sentia ameaçada pela liberdade deste homem. Se sacerdote significa o pastor que dá a própria vida para reconciliar tudo,então temos aqui a designação mais adequada da própria identidade de Jesus tal como a carta aos hebreus a compreendeu.

Ousar chamar-se  “Auxiliares do Sacerdócio ” implica compreender bem o mal-entendido que pode suscitar a palavra ‘sacerdócio’ e o engajamento de existência que ele abre. Um engajamento de existência que Jesus abre para muitos .

No início do século, uma jovem mulher, Marie Galliod, compreendeu assim o coração do ministério de Jesus e traduziu-o em um projeto para uma congregação religiosa apostólica feminina. Este projeto diz respeito também a uma multidão de homens e mulheres de todas as idades, de todas as origens e de todas as culturas: aqueles/as que estão em profunda afinidade com este Jesus que passa sua vida a ser doada sendo aliança e reconciliação.

Quanto numerosos são pelo mundo e bem próximos, em nossos bairros e povoados, esses “ Auxiliares de Jesus Sacerdote!

Marie-Jo Deniau