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Rede de peixes

                     
       “Joguem a rede do lado direito da barca, vocês acharão peixes”. Jo 21,5-7

 

Há um ano e meio, eu trabalho como voluntária num Projeto que se chama ‘Rede’.

Esse projeto recebeu esse nome por duas razões. Ele se inspira na frase do Evangelho de João 21, 5-7, como o representa seu logotipo : « Joguem as redes do lado direito da barca e vocês acharão », mas também é uma maneira de trabalhar com outros.

Este dia, os discípulos, sob o impulso de Simão Pedro, decidem ir pescar no grande lago da Galileia. A noite toda, laçaram as redes em todos os cantos e recantos do lago, mas em vão, a pesca era infrutuosa, dura, nem mesmo um pequeno peixe. Então, todos cansados e decepcionados, os discípulos voltam para a margem do lago; era o amanhecer. Mas a uns metros da margem, eles percebem uma pessoa que não reconhecem, mas lhes endereçam uma palavra: « Rapazes! Vocês têm alguma coisa para comer? » e lhes dá uma ordem: « Joguem a rede do lado direito da barca e vocês acharão”.

Diante das dificuldades da saúde no nosso Brasil, as filas intermináveis de doentes que esperam diante dos postos de saúde para receber um atendimento, poderíamos nos sentir como os discípulos, cansados, impotentes, mas tal como Jesus chamava seus discípulos para continuar a lançar suas redes, Cristóvão, nosso pároco, pediu a uma dezena de mulheres para construir um projeto social afim de permitir a homens e mulheres pobres, ter acesso à saúde ou a uma assistência jurídica.

Lançar as redes para devolver a esperança a homens e mulheres, mas também para permitir, por meio de uma rede, que profissionais se coloquem a serviço dos mais pobres, vivam a compaixão de Cristo para com os que eles encontram no seu caminho.

Assim, hoje, sessentas e um profissionais da saúde (39 médicos, 22 dentistas) aceitam receber gratuitamente essas pessoas que não têm acesso à saúde, dois laboratórios, duas clínicas de radiologias colocam a disposição seus serviços. Duas óticas oferecem dois pares de óculos grátis por mês, dois protéticos oferecem também duas próteses por mês. O Projeto conta também com cinco advogados e quatro cabeleireiro/as.

Todos esses profissionais aceitaram entrar na Rede para oferecer um pouco mais de dignidade a essas pessoas excluídas da sociedade. Quanta alegria poder ir à cabeleireira no dia do seu aniversário!

Outros profissionais: floristas, lojas de perfumes, chocolate nos enviam um ou dois presentes a oferecer para os aniversários dos médicos, dentistas etc….. É uma forma de reconhecimento e agradecimento.

Esse trabalho em rede permite a cada um contribuir com o Projeto segundo suas competências, suas possibilidades. A força dessa rede é permitir o crescimento da reciprocidade, das solidariedades e cooperação entre pessoas que não se conhecem, num contexto marcado, hoje, pelo “cada um por si”, pela concorrência.

Esse trabalho testemunha de uma Igreja não fechada em si-mesma, mas preocupada pelos desafios do mundo de hoje!

A Doutrina Social da Igreja sublinha que a caridade social não se esgota nas relações entre pessoas, mas que ela se expande até onde essas pessoas estão inseridas, uma rede que é justamente a comunidade social e que visa o bem de toda a comunidade. É isso que tentamos viver no projeto “Rede”. Na Encíclica Laudato SI, o Papa fala explicitamente do “amor civil e político”: “o amor, cheio de pequenos gestos e cuidados recíprocos, também é civil e político, manifestando-se em todas as ações que buscam construir um mundo melhor”.